
Morreu João Abel Manta
Morreu na passada sexta-feira, dia 15 de maio, aos 98 anos de idade, o artista plástico, arquiteto, Ilustrador e cartoonista, João Abel Manta.
Caricatura de Francisco Pulido Valente
Retrato a óleo de Francisco Pulido Valente
Morreu na passada sexta-feira, dia 15 de maio, aos 98 anos de idade, o artista plástico, arquiteto, Ilustrador e cartoonista, João Abel Manta, criador, entre outras obras emblemáticas, do cartaz “O povo está com o MFA”, dos desenhos para as tapeçarias do Salão Nobre da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, do projeto do conjunto habitacional na Avenida Infante Santo (com Hernâni Gandra e Alberto Pessoa) e das ilustrações para A Cartilha do Marialva de José Cardoso Pires.
Foi uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa contemporânea — um observador agudo do país, da política, da sociedade e das suas contradições. A sua obra atravessou décadas de vida portuguesa com uma inteligência rara, aliando humor, ironia e profundidade crítica.
João Abel Manta foi mais do que um artista. Foi um intérprete do país. Com um traço inconfundível, soube revelar, como poucos, as virtudes e os absurdos do seu tempo. As suas caricaturas, desenhos e pinturas não eram apenas imagens: eram reflexão, inteligência e consciência.
Num tempo em que tantas vezes a superficialidade se impõe, João Abel Manta lembrava-nos que o humor pode ser profundo, que a ironia pode ser um exercício de lucidez e que a arte pode ser uma forma de liberdade.
Acompanhou momentos decisivos da nossa história coletiva e ajudou-nos a olhar para eles com distância crítica, mas também com humanidade. A sua obra tornou-se parte da memória cultural e política portuguesa.
Mas para além do artista extraordinário, fica também a memória do homem culto, atento, discreto e profundamente livre. Alguém que nunca desistiu de pensar pela sua própria cabeça e de olhar o mundo com independência.
Que a sua obra continue a interpelar-nos, a fazer-nos sorrir, pensar e questionar. E que o seu nome permaneça entre aqueles que ajudaram a construir uma cultura portuguesa mais consciente, mais crítica e mais livre.
João Abel Manta era filho do pintor Abel Manta, autor do quadro A Leitura, e grande amigo de Francisco Pulido Valente, e de Clementina Carneiro de Moura, cunhada do médico José Pulido Valente, irmão do patrono da Fundação.