Texto de suporte ao quadro do Pintor Abel Manta exposto no Museu da Cidade de Lisboa numa visita guiada aquele espaço

O presente texto tem como base um outro, escrito por Fernando Pulido Valente, com a intenção de servir de base a iniciativas de exploração do quadro de Abel Manta, enquadrando historicamente as figuras representadas, fornecendo dados biográficos sobre cada uma delas e cumprindo uma das missões da Fundação Professor Francisco Pulido Valente, a de promover a figura do prestigiado médico e de personalidades que faziam parte da sua tertúlia diária no consultório do Chiado, em Lisboa. De assinalar que Fernando Pulido Valente, filho de Francisco Pulido Valente, foi o grande dinamizador da Fundação até ao seu desaparecimento no início de 2016.

Querendo retomar a ideia, o assunto foi já tema de reunião com a Câmara Municipal de Lisboa (que assinou protocolo com a Fundação Pulido Valente para ficar com a guarda do quadro na década de 90 do século passado) que se mostrou completamente disponível para concretizar o projecto, a partir do próximo ano de 2020, altura em que ficarão concluídas as obras de remodelação do Museu da Cidade, no Campo Grande.

Assumido esse compromisso por parte da Autarquia, através da sua Vereadora, Catarina Vaz Pinto, fica a responsabilidade do lado da Fundação de construir uma espécie de Workshop em torno do Quadro do Consultório, também intitulado “A Leitura”.

Depois de pintado, talvez entre 1955 e 1956, o quadro esteve na sala de estar da casa de Francisco Pulido Valente no nº15 da Avenida António Augusto Aguiar, ocupando toda a parede do fundo (a sua dimensão exigia um apartamento com boas áreas). Em 1971, com a necessidade de desocupar a residência por morte da viúva de Pulido Valente, Maria da Conceição, o quadro foi transferido para a casa de Manuel Mendes, escritor e uma das personalidades representadas no quadro. Esteve no Restelo até 1983, altura em que foi doado, pelos herdeiros de Francisco Pulido Valente à Câmara Municipal de Lisboa (protocolo assinado e já referido acima que estabelecia como condição a sua exposição permanente, o que nem sempre tem acontecido).

Trata-se de uma tela de grandes dimensões na qual estão retratadas 12 figuras que frequentavam a tertúlia que se reunia pela tarde (no final das consultas) no consultório de Francisco Pulido Valente, no número 61 da Rua Garrett. Independentemente da sua qualidade pictórica o quadro tem um valor histórico e cultural enorme que passa pela vida cultural lisboeta dos anos cinquenta, em pleno regime de Salazar. Nele estão representados cidadãos activos da sociedade portuguesa que desempenharam papéis importantes em várias áreas como Medicina, Literatura, Música, Artes Plásticas e Política.

Rua Garrett nº61

Pintor Abel Manta no seu atelier frente ao Quadro

Socorremo-nos do livro In Memoriam (publicação da Imprensa Nacional Casa da Moeda e da autoria de Fernando Pulido Valente) para transcrever uma passagem a propósito da tertúlia: Era nesta tertúlia que funcionava uma espécie de Academia em que os participantes analisavam e debatiam os acontecimentos políticos ou culturais mais importantes. Nessa mesma publicação é feita ainda a transcrição de uma passagem do artigo que o pintor escreveu para a Revista Seara Nova por ocasião do 20º aniversário da morte de Bento de Jesus Caraça, que também frequentava os encontros, mas que tinha morrido quando o quadro foi pintado: ..e ás vezes, pela tarde naquele 1º andar, ali no Chiado, na salinha ao lado do consultório, onde já caturravam, pelo menos, o Dr Pangloss (Carlos Olavo) e Ramada Curto, sempre os primeiros a chegar. Esperando que mestre Pulido, despachado o último doente, surgisse à porta, de mão levantada, lançando o seu habitual “façam o favor de entrar”. A porta não se fechava porque, já se sabia, que a seguir chegava um, chegava outro, e, em poucos instantes, a tertúlia (tantas vezes evocada por Aquilino) estava completa. O que tinha a sua graça é que, naquele “centro clínico”, digamos – a respeito de médicos, temos conversado…Efectivamente, só os Dr Ribeiro Santos e Mário de Alenquer e, uma vez ou outra, Oliveira Machado, Ducla Soares, porque tudo o mais eram companheiros de cavaco que o Professor Pulido auscultava de borla, já se vê, quando, para não ter a maçada de receitar ou lhes poupar a botica, lhes metia na mão a  amostrazinha da droga.

O autor, Abel Manta, foi considerado por alguns, o maior retratista da sua época logo a seguir a Columbano Bordalo Pinheiro. Nascido em Gouveia, a 12 de Outubro de 1988, o artista estudou pintura na Escola de Belas Artes de Lisboa, e viveu em Paris de 1919 a 1925, período em que viajou muito na Europa, sobretudo na Itália, onde se interessou pelos frescos renascentistas.

Retratou Aquilino Ribeiro, Paiva Couceiro, Bento de Jesus Caraça, entre outras personalidades da cultura portuguesa. Foi condecorado em 1979 com uma comenda da Ordem de Santiago da Espada.

As figuras centrais do quadro são: o escritor Aquilino Ribeiro e o Professor Pulido Valente. Estas duas figuras, principalmente a primeira, com riquíssima obra literária, quase toda existente no espólio da Fundação Professor Francisco Pulido Valente (www.fpulidovalente.org) são sobejamente conhecidas, não exigindo que nos debrucemos aqui sobre as suas biografias. Aquilino Ribeiro aparece no quadro lendo para a audiência, presumivelmente, um dos seus romances (https://www.museosdeescritores.com/ribeiro-aquilino/). Como curiosidade e prova da grande amizade que unia os dois, de referir o texto de dedicatório do Romance da Raposa, que reforça a enorme sensibilidade do escritor.

As notas biográficas que se seguem dizem respeito às restantes 10 figuras que aparecem retratadas.

O nº1, começando em cima e à esquerda é o médico Vasco Ribeiro dos Santos (1913-1982), clínico, Director de Serviço dos Hospitais Civis de Lisboa, admirador e amigo de Pulido Valente. Era Pai do estudante José Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE em 1972, no Instituto Superior de Economia, actual ISEG, na Rua do Quelhas em Lisboa.

Seguindo para a direita, em cima, temos Mário de Alenquer (1921-1964), também médico, tisiologista, que foi Chefe de Serviço no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. Francisco Pulido Valente tinha uma admiração muito especial pelas qualidades intelectuais de Mário de Alenquer, que dispunha de uma sólida formação em Matemática e Física (domínios de interesse também de PV) , participando em discussões com especialistas dessas áreas. A cultura literária de Mário de Alenquer permitia-lhe, por vezes, dirimir questões em dúvida sobre personagens literárias. Mário de Alenquer era casado com uma filha de Teotónio Pereira, colaborador de Salazar. A pedido do seu sogro, elaborou um relatório sobre a situação do ensino da Medicina em Portugal, havendo um exemplar desse documento no espólio da Fundação Pulido Valente.

Segue-se Fernando Lopes Graça (1906-1994), conhecido compositor, grande amigo de Francisco Eduardo, filho de Pulido Valente. Lopes Graça foi acolhido em casa da família Pulido valente, na Rua São Filipe Nery, em 1939, quando, no início da Guerra, voltou para Portugal vindo de Paris. Viveu largos anos em Campo de Ourique, em casa de Domingos Lopes, ex-impedido de Lúcio dos Santos, cunhado de Francisco Pulido Valente. Domingos Lopes tomou parte activa na revolução republicana de 1910, tendo merecido o elogio de Machado dos Santos. Lopes Graça dedicou umas canções de Natal a Pulido Valente, com capa ilustrada por João Abel Manta que lhe foram oferecidas por ocasião do seu aniversário natalício (25 de Dezembro).

Na sequência espreita Manuel Mendes (1906-1969), escritor, amigo de Francisco Pulido Valente e de toda a família, incluindo um dos genros Pedro Monjardino, também médico. Como escritor, Manuel Mendes, além de romances, sendo o mais conhecido “Pedro”, publicou várias monografias sobre artes plásticas, que aliás também praticava, principalmente, escultura. Manuel Mendes desempenhou um papel importante na luta contra o salazarismo. Entre outras acções, merece especial destaque o seu papel no MUD e na Campanha de Humberto Delgado. Manuel Mendes era grande amigo de Mário Soares, estando o seu espólio à guarda da Fundação com o nome do antigo Presidente da República.

Ainda na fila de trás, vemos seguidamente, Sebastião Costa (1894-1969), filho de Afonso Costa, engenheiro mas não exercendo. Havia laços de amizade entre as famílias. Francisco Pulido Valente era muito amigo de um cunhado de Sebastião Costa, Fernando de Castro, advogado, também envolvido nos movimentos de oposição a Salazar. No dia 7 de Fevereiro de 1927 (Revolta falhada contra o regime instaurado a 28 de Maio de 1926) Fernando de Castro refugiou-se em casa de Pulido Valente, bem perto do Largo do Rato onde um número indeterminado de marinheiros e civis foram fuzilados junto ao chafariz depois de abortado o golpe a 9 de Fevereiro.

Ao lado de Sebastião Costa está Luís da Camara Reis (1885-1961), professor liceal, publicista e escritor, amigo de juventude de Pulido Valente. Foi um dos fundadores da revista Seara Nova, juntamente com Raúl Proença, António Sérgio, Jaime Cortesão e outros. Durante vários anos foi director dessa revista. Eram conhecidos os seus chamados “atrações” com o fim de extorquir dinheiro, em nome da sobrevivência da Seara Nova. No artigo de Norberto Lopes, publicado na mesma edição do In Memoriam já referida, transcreve-se uma passagem duma carta de Francisco Pulido Valente para Carlos Olavo em que se fazem comentários a este respeito.

Na ponta direita da fila de cima figura o auto-retrato do pintor Abel Manta (1888-1982). Existiam relações de família entre Abel Manta e Pulido Valente uma vez que a mulher do pintor, Clementina Manta, também pintora, era cunhada de um irmão de Francisco Pulido Valente (o médico José Pulido Valente).

Das figuras que surgem em primeiro plano, em baixo, Aquilino Ribeiro, Ramada Curto (1886-1961), Carlos Olavo, Pulido Valente e Alberto Candeias, os menos conhecidos serão Carlos Olavo e Alberto Candeias.

Carlos Olavo (1881-1958), advogado, que exerceu até 1945 o cargo de Secretário Geral do Governo Civil de Lisboa, era amigo de juventude de Pulido, havendo entre as famílias de ambos estreitos laços de amizade. Com Ramada Curto e Pulido Valente, Carlos Olavo tinha participado na greve académica de 1907, desempenhando um papel destacado, como é patenteado em várias fotografias da época. Foi feito prisioneiro dos alemães no dia 18 de Abril de 1918 na Guerra de 14-18, deixando um livro de memórias dessa época (Jornal de um prisioneiro de Guerra (https://portugal1914.org/portal/pt/historia/biblioteca/item/6752-jornal-d-um-prisioneiro-de-guerra-na-alemanha-1918). Além deste publicou outros livros como “A vida turbulenta do Padre José Agostinho de macedo”, “João das Regras” e “Homens Fantasmas e Bonecos”. Ainda no mesmo volume do In Memoriam, transcreve-se a passagem de uma carta datada de 1917, de Francisco Pulido Valente, em que refere uma visita de Carlos Olavo durante a guerra. Um irmão de Carlos Olavo, Américo Olavo, também amigo de Pulido Valente, militar revolucionário, foi assassinado em condições nunca esclarecidas, em casa da família Olavo, quando aí também se encontrava o amigo Pulido Valente. Julga-se que por engano, sendo o alvo procurado outro dos seus amigos revolucionários.

Por fim, Alberto Candeias (1891-1972), professor liceal de Ciências Naturais, colaborador assíduo da revista Seara Nova, onde assinava a secção de Factos e Documentos. Nessa rubrica, Alberto Candeias, mostrava a sua cultura e espírito progressista, comentando acontecimentos científicos e políticos. Foi um dos subscritores do requerimento dirigido ao Governo Civil de Lisboa, pedindo autorização para a histórica reunião do Centro Republicano Almirante Reis, na origem do MUD, em 1945.

A tertúlia do consultório acabou quando Francisco Pulido Valente deixou de fazer clínica, mas as suas ligações com alguns dos seus membros, coo Manuel Mendes, Lopes Graça, Aquilino Ribeiro e Abel Manta, mantiveram-se até ao fim da sua vida em Junho de 1963. O In Memoriam inclui contribuições de Mário Neves e Norberto Lopes com referências específicas ao grupo do consultório.

Texto de Fernando Pulido Valente, actualizado em Fevereiro de 2019 por Rui Pulido Valente.