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Vida Académica

Resumo da vida académica do Prof. Francisco Pulido Valente. Texto produzido a partir da intervenção do Professor Miguel Carneiro de Moura em 15 de Abril de 1993 durante a homenagem a Pulido Valente quando da entrega do Primeiro Prémio Ensino.

Em 1911 triunfa no seu primeiro concurso de provas públicas e é nomeado médico da Junta Consultiva dos Hospitais Civis de Lisboa, sendo em 1914, promovido a assistente da secção de Medicina, lugar de que só saiu quando, mais tarde, ingressou em comissão de serviço na Faculdade.

Em 1912 é nomeado primeiro assistente de Psiquiatria e vem trabalhar sob a direcção de Júlio de Matos, que muito o acarinhou. A sua passagem pelo Hospital de Rilhafoles marcou fortemente a sua cultura, cujos fundamentos e interesse neuropsiquiátricos passaram a ser, desde então, evidentes. Desde 1912 trabalha em Psiquiatria e Medicina Interna e continua frequentando as Clínicas de outras especialidades, como a Dermatologia.

Mas o seu interesse cedo se volta para a relação entre Laboratório e Medicina Clínica, até então um campo relativamente não explorado entre nós. De 1914 a 1917 frequenta o Instituto Câmara Pestana dirigido pela figura prestigiada de Aníbal Bettencourt e aí adquire experiência nas principais técnicas de laboratório e começa os seus trabalhos de investigação sobre a sífilis. Os seus estudos experimentais sobre a sífilis são considerados, por muitos, como a parte mais definidora da sua obra. Estes estudos estão contidos nas três monografias que publicou: Nota sobre a sífilis experimental do coelho, Sobre a etiologia e patogenia da paralisia geral e Sobre a infecção precoce do espaço subaracnoideu. Os resultados do trabalho experimental são notáveis, evidenciam a excelência técnica atingida e passam a ser reconhecidos como dados clássicos sobre a doença.

É nomeado primeiro assistente de Medicina Interna, depois de um concurso público que se tornou muito falado e onde obteve 20 valores. Nesse mesmo ano assume a regência da 1.ª Clínica Médica e a direcção dos respectivos serviços hospitalares. Em 1921 profere a célebre lição sobre Paralisia Geral e é nomeado Professor Catedrático de Patologia e Terapêutica Médica.
A partir da sua entrada para Professor titular, Pulido Valente dedica-se, sobretudo, à organização do ensino, à formação dos seus assistentes e ao desenvolvimento dos laboratórios que constituíram um dos fundamentos da sua metodologia clínica. Por sua indicação, Cascão de Anciães, Fernando Fonseca e Morais Cardoso vão frequentar, na Alemanha, clínicas dirigidas pelos maiores especialistas da época.

Em 1923, com a saída de Belo Morais, é transferido para a cadeira de Clínica Médica. Em 1936 dirige uma carta ao director da Faculdade de Medicina em defesa do prossectorado do Hospital Escolar e consegue a contratação do Professor Wohlwill, distinto patologista que deixava a Alemanha nazi. É o início de uma frutuosa colaboração e marca uma mudança decisiva na abordagem dos problemas clínicos dando ênfase à correlação anatomopatológica-clínica e aos mecanismos fisiopatológicos, como base da interpretação precisa dos quadros clínicos.

Nos anos seguintes publica uma série de lições que são marcos no conhecimento da época: sobre a diabetes, sobre circulação do sangue e sobre a electrocardiografia. As lições sobre diabetes constituem uma magnífica síntese dos enormes progressos que havia trazido a terapêutica com a insulina e a sua integração nos conhecimentos sobre a patogenia da doença.

O trabalho sobre a «Teoria da circulação normal e patológica: a hipótese de Windkessel» e as seis lições sobre fundamentos da electrocardiografia marcam o entusiasmo pela aplicação da matemática à medicina. Essa paixão foi tal que o levou a fazer uma extraordinária preparação matemática com a ajuda de Bento de Jesus Caraça, amigo de longa data e, depois, continuada com Mário de Alenquer, um dos seus discípulos mais jovens.

Em Junho de 1947, em período de plena pujança intelectual e profissional, é cruelmente demitido do seu lugar de Professor de Clínica Médica pelo Conselho de Ministros presidido por Salazar. É aposentado, compulsivamente. Desde essa data, não mais publicou qualquer trabalho ou participou em qualquer manifestação científica. Continua a sua actividade clínica, com enorme prestígio, sendo consultado e ouvido em todos os casos complexos da época. Adquire maior importância, como foco cultural, a sua tertúlia do consultório, depois de terminadas as consultas, onde reúne algumas das figuras mais prestigiadas do seu tempo. Está retratada soberbamente por Abel Manta, num quadro a óleo intitulado o Grupo do Consultório (ou A Leitura) de 1955, hoje incluído na colecção do Museu da Cidade de Lisboa.

Em 1954, por altura do seu 70.º aniversário, publica-se o livro de homenagem, com a colaboração de muitos discípulos e colegas. É uma colectânea notável em que, mais do que o valor científico dos trabalhos, impressiona a diversidade dos temas abordados, a força da amizade, o reconhecimento de todos pela enorme influência que Pulido Valente tivera nas suas carreiras.


«Aos olhos de algumas figuras da época.»

Excerto do discurso do Prof. Carneiro Moura na entrega do Primeiro Prémio Ensino.
Pulido Valente foi um dos pioneiros na criação das bases científicas da Medicina em Portugal. A sua contribuição mais significativa situou-se na fronteira entre a ciência médica e a prática clínica. Acreditava que o futuro da medicina dependia da aplicação da ciência e dos seus métodos ao diagnóstico e ao tratamento dos doentes. Tinha a clara visão de que o uso dos métodos laboratoriais no estudo das manifestações da doença traria excelentes resultados para a prática clínica. Nenhum médico da sua geração foi tão influente em estabelecer a colaboração entre o Laboratório e a Clínica.


Juvenal Esteves caracterizava assim a figura e a influência que exerceu no seu tempo.
O nome de Pulido Valente, quando pronunciado no tempo da sua liderança, ressoava sempre a contundência. Foi, na realidade, um Mestre. Prestigiou-se, profissionalmente, desde o início da carreira, organizou grupos de acção médica, renovou a teoria e a prática da medicina em Lisboa. Agitou o meio em que viveu. Disciplinou. Foi temido.

Professor Diogo Furtado nas páginas do «Festchrift».
Nenhum médico português… nenhum mestre de medicina, teve influência comparável, sequer, à de Pulido Valente sobre as actuais gerações de médicos. Foi nele, com o favor das excepcionais aptidões da sua inteligência, que se deu entre nós a grande metamorfose da medicina, passando de uma arte, baseada essencialmente na observação clínica, para uma verdadeira ciência, que procura constantemente a base experimental dos fenómenos que observa.