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Origens

Francisco Pulido Valente

Francisco Pulido Valente não era um homem para se comprazer na investigação e contemplação do seu passado familiar. Na pouca importância atribuída à história da sua família revelava o mesmo pudor que o levava a ser avesso a tudo quanto pudesse ser interpretado como uma atitude de pose para a posteridade. Pode-se dizer que Francisco Pulido Valente acreditava que os homens valem fundamentalmente por aquilo que fazem em vida e não pela memória que deixam nos vivos.

Esta concepção explica, porventura, a ausência quase completa de escritos seus e a raridade de documentos relativos aos seus antepassados. Isto não significa, no entanto, que Francisco Pulido Valente não atribuísse importância aos laços familiares. Pelo contrário, todo o seu comportamento em relação aos membros da família era perfeitamente exemplar e era notório o interesse com que por vezes evocava pessoas e acontecimentos ligados à sua família e aos usos e costumes da sua terra de origem.

A sua ligação sentimental era especialmente forte em relação a Barrancos, donde provinha a família de sua mãe, onde viviam vários parentes chegados e onde, na sua juventude, passou várias temporadas de férias. Os produtos desta terra raiana, nessa altura ainda mais marcadamente espanhola, os seus enchidos, as suas túbaras, os seus espargos, sempre foram para ele qualquer coisa de verdadeiramente excepcional.

A família Pulido era originária de Espanha e estabeleceu-se em Portugal no princípio do século XIX, juntamente com outras famílias espanholas (Vasquez, Cano, Gómez, etc…) por ocasião das invasões napoleónicas. Muitas destas famílias provinham da povoação de Almendro, na província de Huelva. Estas famílias instalaram-se não só em Barrancos, como noutras terras alentejanas, tais como Moura, Serpa, Vidigueira, Cuba, Amareleja, Mértola, etc… Do ramo Pulido, uma parte acabou por se fixar em Barrancos, vinda eventualmente de Moura, onde nasceu a mãe de Francisco Pulido Valente, e outra parte na Vidigueira. Foi nesta última vila que nasceu Francisco Martins Pulido, em 1815. Este antepassado de Francisco Pulido Valente foi também uma figura notável da medicina portuguesa. Foi ele o primeiro director efectivo do Hospital de Rilhafoles, cargo para que foi nomeado em 1849. Formou-se em França na Universidade de Montpellier e apresentou tese na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1843, tendo sido preterido por outro candidato, o Dr. Caetano Beirão. A sua nomeação para director do Hospital de Rilhafoles parece ter constituído uma satisfação à campanha de protesto por ele desenvolvida, acusando o seu concorrente de plágio.

No seu trabalho sobre os alienados em Portugal, publicado na revista «Medicina Contemporânea», o Prof. António Maria Sena refere-se à acção de Francisco Martins Pulido, particularmente ao seu esforço de actualização de instalações e métodos, da seguinte forma:

Não houve detalhe que não merecesse a sua atenção. O princípio do isolamento, convenientemente compreendido e aplicado, o trabalho metódico como meio de tratamento, o tratamento moral, a educação do pessoal no sentido de só empregar para com os infelizes alienados meios brandos e persuasivos, impondo-se-lhes pelo respeito apenas, o largo desenvolvimento dado às condições higiénicas até então sistematicamente desprezadas, a regularização nas admissões e respectiva escrituração, por forma a colherem-se e a guardarem-se com sistema todos os elementos importantes da história do alienado, o estabelecimento dos preceitos convenientes para garantir a liberdade das pessoas, opondo-se às admissões ou retenções arbitrárias, tais foram os traços gerais da reforma considerável realizada nesta época, grandemente trabalhada pelo Dr. Pulido.

Definitivamente constituído e instalado o novo hospital, o Dr. Pulido entregou-se ao estudo dos seus doentes, fazendo a justa aplicação das doutrinas de Pinel e Esquirol, que já então tinham penetrado em toda a parte; e, no pouco tempo que esteve com assiduidade e boa vontade à testa deste serviço, elaborou o melhor trabalho que sobre tais assuntos existe até à data na nossa literatura médica. Vem incorporado no relatório que o enfermeiro-mor do Hospital de São José. Diogo António de Sequeira Pinto, dirigiu ao ministro do Reino em 22 de Março de 1852.

A este relatório que pode ser encontrado na internet (sendo também disponibilizado pela Fundação) parece não ter sido dada a importância e o destaque que ele merecia, sendo enterrado no meio do relatório administrativo do enfermeiro-mor a que acima se refere. Escreve António Maria de Sena:

E assim ficou na sombra o trabalho do Dr. Pulido, do qual não achei notícia na literatura estrangeira, nem consta que tenha sido aproveitado por algum escritor português para trabalho de valor sobre este assunto, tão pouco cultivado, de resto, entre nós.

Desgostoso com o desinteresse e falta de apoio das autoridades, Francisco Martins Pulido abandona a direcção do hospital e, depois de exercer clínica durante alguns anos em Madrid, acaba por se retirar para Vila Nueva del Fresno, terra de sua mulher, onde morre em 1876.

A referência a este antepassado tem um significado especial não apenas pela eventualidade de alguns traços comuns de personalidade traduzidos no desassombro e firmeza de algumas atitudes mas porque foi também no Hospital de Rilhafoles, então designado por Hospital Miguel Bombarda, que Francisco Pulido Valente iniciou a sua carreira em 1912, como assistente de Júlio de Matos, que então regia a cadeira de Psiquiatria, introduzida nos estudos médicos pela reforma de 1911.

A «costela espanhola» vem pois do lado materno, a qual se reflecte no seu interesse pela cultura desse povo, cujo idioma praticava com grande prazer, lendo, por vezes, em voz alta para a família, poesias de Gracía Lorca, apreciando particularmente, também, a sua música. O ramo Pulido radicado em Barrancos, ao contrário do ramo da Vidigueira, manteve sempre, como é natural dada a sua proximidade da fronteira espanhola, um estreito contacto com Espanha. O idioma castelhano era correntemente utilizado na família de Barrancos, a maior parte dos livros provenientes dessa família tinham sido editados em Espanha e os retratos a óleo dos antepassados ostentam uma nítida marca da escola de pintura espanhola.

Enquanto o ramo Pulido da Vidigueira se dedicou, principalmente, à agricultura, o ramo radicado em Barrancos enveredou pela exploração mineira, pelo menos inicialmente, tendo existido uma Sociedade de Minas Pulido.

Como curiosidade sobre a família Pulido, diga-se ainda que um tio do Dr. Francisco Martins Pulido esteve envolvido num crime algo rocambolesco que forneceu o tema para um romance incluído numa série de descrições de crimes célebres e editado em 1883.

Sem que isso possa afectar a estima que Francisco Pulido Valente dedicava a seu pai, não há dúvidas de que era com o temperamento de sua mãe que ele mais se identificava. Maria Bela Pulido Valente era o que se pode chamar uma mulher de armas – uma personalidade forte, verdadeira figura tutelar da famíliaintervindo com energia e decisão sempre que os interesses da família estavam em jogo. O predomínio das figuras femininas nestas famílias tradicionais da província é, de resto, um fenómeno conhecido, resultado, porventura, do género de vida dos elementos masculinos, aliado em geral à sua mais curta longevidade.

Pelo lado paterno, Francisco Pulido Valente descende de uma família também alentejana de Vila Nova de São Bento. O pai, Francisco Manuel Valente, dedicava-se ao comércio, possuindo uma loja de câmbios em Lisboa. Um primo direito de Francisco Pulido Valente, António Valente, que muito ajudou Francisco Pulido Valente nos seus primeiros tempos de casado, dedicava-se ao comércio, sendo empregado nos Armazéns Grandela.